martes, 11 de agosto de 2009

Caminho de Santiago







Agô (do Yorubá Àgò: Interjeição usada na tradição dos orixás como pedido de licensa ou desculpa)






Barcelona, 04 de agosto de 2009, 06:30h




Assim que desci com Rafael, o amigo a quem confiei meus pertences enquanto estivesse viajando, já em contato com a rua, lembrei de um espetáculo de teatro que assisti e que começava justamente assim: Há que pedir licensa aos caminhos toda vez que for trilhar uma larga jornada. Eu, que já tenho meio pezinho no TATAC-TUMTUM, fui direto ao donos dos caminhos:




Laroiê, Exu!


Agô!


Terça-feira, 04 de agosto de 2009, 13:30h


Encaro seis horas num ônibus de Barcelona até Pamplona. Já na estação rodoviária me deparo com dois colegas brazucas, peregrinos mas em bicicleta. Eles me pedem pra fazer uma foto dos dois.

Começo a minha caminhada já fazendo uma siesta. Na saída de Pamplona, invejo um grupo de ciclistas que param um tempinho pra descansar antes de encarar um sol de 31ºC às 14h.

Depois do descanso merecido passo pela Universidade de Navarra para obter meu primeiro registro de passagem na credencial do peregrino e começo, enfim minha peregrinação

No primeiro trecho entre Pamplona e Cizur Menor já senti a necessidade de levar um cajado. Parece viadagem de místicos que um peregrino tem que andar apoiado num cajado, mas esse apoio ajuda bastante na hora das subidas e te equilibra nos terrenos em desnível, evitando quedas desnecessárias. Está muito de moda usar umas varetas retráteis para caminhadas (12€ cada uma no Decathlon). Mas eu preferi escolher meu próprio cajado pelo caminho. Entre os galhos secos das árvores ía pegando uns, fazendo um test drive e logo os descartando até chegar ao cajado perfeito.

Pau na mão; pé na estrada!


Saindo de Zariquiegui, aos pés do Alto del Perdón (734m) paro pra ver uma dupla de parapentes fazendo evoluções no ar. Cai a noite e tenho a minha primeira experiência franciscana: Dormi ao relento num banco de pedra. Aí, montei meu sleeping bag e dormi rapidinho, afinal a viagem de ônibus de Barcelona a Pamplona e os 10 km percorridos já me consumiram de montão.


Quarta-feira, 05 de agosto de 2009, 06:30h

















Alto del Perdon

Sob uma temperatura de 20ºC, deixo o Alto del Perdón e vou tomar meu café da manhã em Uterga. Ali consigo meu segundo registro na credencial do peregrino e vou inflando mais ainda meu orgulho.

Em seguida passa a ciclista brasileira que pediu para tira uma foto dela na estação rodoviária de Pamplona. Desayunamos juntos e, depois ela segue na frente com sua bike.



Às 11:00h chego em Puente la Reina. Alí passo no mercado, compro algo de frutas, biscoitos e iogurte e faço uma pausa para larica na saida da cidade. Depois em outro trecho, viria a fazer uma siesta às 15:00h como uma maneira de não estar exposto aos 35ºC que faziam nessas paragens.












Puente la Reina

Às 17:00h faço uma pausa em Cirauqui. Lá mesmo com o pueblo de portas fechadas para o horário da siesta, consegui encontrar um

mercadinho aberto e assim, pude comprar alguns gêneros para a próxima jornada


Às 19:20, com um sol alto ainda, saio de Cirauqi, e, ao longe, na linha do horizonte, vejo uma nuvem ameaçadora, mas negligencio o perigo. Viríamos nos encontrar num pomar de pêssegos, macieiras e pés de ameixa. Eu e a tormenta. Estava isolado no meio do nada a uns 5 Km do próximo povoado. E agora? como sobreviver???

Uma das minhas características mais marcantes de um ser de escorpião é a capacidade de reacionar muito friamente e com concentração diante do perigo iminente: Descobri, no meio da plantação uma cabana coberta com um sistema de tubulações e uns tanques que recolhem água da chuva e a armazenam para irrigação.

Nisso, a chuva vinha de lado, fazia um vento insuportável e os raios já caiam ha uns 100 metros de mim. Me meti em cima desses tanques com um espaço útil de mais ou menos 1 metro entre os tanques e o teto, montei meu sleeping bag e fui controlando meu pânico à medida que diminuia a tormenta. Foi uma experiência perigosa e desconfortável...


Quinta-feira, 06 de Agosto de2009

Passada a tormenta, "amanheceu um lindo dia, cheirando a alegria".

Às 6 da manhã, levanto acampamento e sigo o caminho rumo a Estella, passando antes por Lorca.

Alí quase saio do rumo: a sinalização num trecho próximo ao supermercado Simply está um tanto confusa, mas quem tem boca...

Depois de uma pausa pra siesta (Percebam que já aderi totalmente a esse costume hispânico!!!), sigo rumo ao Monastério de Irache, onde instalaram uma providencial fonte onde jorra vinho!

Outra vez na trilha e na cidade de Ayequi, sou surpeendido por outra tormenta, mas dessa vez me abriguei debaixo de um túnel. Tão logo a chuva passa, sigo em direção a Azqueta, e em seguida busco o pernoite em Villamayor de Monjardin. Como não haviam plazas no albergue paroquial, único no pueblo, somente pude tomar um banho e me deram como alternativa dormir no frontón da casa paroquial. (Bendito saco de dormir _ Ave, Gláucia!) Dormi com os anjos, abrigado de uma terrível tempestade, não sem antes escutar a cantoria perturbadora dos "peregrinos" alemães, que se portavam como se estivessem numa Oktoberfest em Munique.




















Villamayor de Monjardin

Sexta-feira, 07 de Agosto de 2009

Às 7:00 h de um dia nublado e sob temperatura de 15ºC, Zarpo de Villamayor. Aí começaria uma semana inteira sem ver o sol!

Até chegar em Los Arcos, comecei a lembrar de minha família e passei a entoar, como um mantra os nomes dos meus irmãos em ordem decrescente: IANEMDICADOINENASUCARAILUIJOJECUMPADITULABEGAEBI.

Nesse "mantra" é possível notar que, quando sou mencionado, sou o único a não ter um apelido ridículo inventado por meu pai, a não ser a forma equivocada como se é pronunciado meu nome no Nordeste do Brasil: JOJE. A melodia, eu ía inventando na hora.

Com o tempo nublado, senti uma melhor disposição para caminhar e já não havia necessidade da siesta pra esperar o sol baixar. Essa região do Estado de Navarra é produtora de cereais e, por todo o caminho se viam enormes pilhas de feno de trigo já transformados em grandes fardos em forma decaixa retangular.

Minha passagem por Los Arcos só tardou o tempo de tomar um café num posto de gasolina. Daí segui rumo a Sansol, um pueblo em fiesta mayor, que me recebe com foguetório, banda marcial e campanadas. Caminhando mais 5 minutos, chego à cidade vizinha, Torres del Rio. Alí visitei a igreja do Santo Sepúlcro e segui o caminho com meu recém-amigo, David do País Vasco. No meio do caminho paramos pra fumar um porro (cigarro de haxixe), mas como íamos em ritmo diferente, deixei que ele seguisse na frente.

Chegando em Viana, paro numa fonte pra um descanso, e, por causa da minha camisa da Seleção Brsileiras de 70, fui surpreendido por outro brazuca, o potiguar Deodoro, um senhor de 60 e poucos anos amante das caminhadas.

Buscamos juntos um albergue, mas por mala suerte este já havia encerrado as vagas., então decidimos seguir juntos até Logroño. Na saída da cidade, encontramos com o vasco David, descansando um bocadinho antes de seguir a caminhada.

Às 19:00h chegamos a Logroño e consegimos a última e melhor vaga do albergue municiapal: Um quarto reservado aos hospitaleiros.

Obs. Uma semana depois essse albergue seria interditado por uma praga de chinches. (percevejos)















Chinches

Sábado, 08 de Agosto de 2009

Meu amigo Deodoro saiu à francesa. Eu só saí às 7:30h e assim segui em direção a Nájera.

Às 11:00h chego em Navarrete e às 13:50h em Ventosa. Paro um instante na bodega Valformosa e passo a lembrar das pessoas especiais na minha vida: Maria, Gua, Fernando, Luciano, Mulher de Fé, Deise, Pablo, Bell, Mel... Choro!

Recupero o ânimo e sigo confiante em direção a Nájera, em princípio com um senhor francês. Íamos conversando em inglês. Num outro trecho, sigo com uma senhora navarra: Gerusa.

Deixo com Gerusa em Nájera, onde a esperava o seu marido, o livro que me havia presenteado meu amigo Nacho, em Barcelona dias antes de começar essa aventura. Com isso pude me livrer de um peso que me molestava. Gerusa fez o grande favor de despachá-lo por correio para meu endereço em Barcelona.

Como estou com disposição (e não há mais vaga no albergue de Nájera) sigo rumo a Azofra. - Às 18:30h chego ao albergue municipal de Azofra. O tempo está nublado e se ouvem alguns trovões.


Domingo, 09 de Agosto de 2009

Às 05:00h levanto acampamento e sigo a minha paletada. Num trecho mal sinalizado e na escuridão da madrugada acabo perdendo a trilha. Ando alguns metros pela carretera e com auxílio da bússola, reconecto outra vez com a trilha.

08:00h 15ºC Chego em Cirueña


09:00 18ºC Santo Domingo de la Calzada. Na saída da cidade, ando com Rafael, andaluz. Com ele, naquele domingo chuvoso, cruzo a divisa La Rioja/Burgos.












13:30h 12ºC Chego em Redecilla del Camino e aí assisto à missa dominical. Terminada a missa, pensava em buscar um local coberto (já que chovia) para fazer uma siesta, como não encontrei nenhum lugar seco e limpo, parei na saída da cidade pra comer um sanduíche e eis que encontro outra vez com o senhor potiguar, que havíamos feito juntos o trecho Viana/Logroño.

Com Deodoro, caminhamos até Belorado. No caminho, passamos pelo refúgio do carioca Acácio em Viloria de Rioja, alí deixei uma das minhas aquarelas.

Em Belorado, em pleno dia dos pais encontrei um albergue com uma boa infra estrutura. De cara já meti os pés dentro da piscina de água gelada - Faziam 10ºC.

Foi apreciar o por do sol em Belorado nas ruínas do castelo. Alí, um outro peregrino me recomendou que desse uma mirada atenta em San Juan de Ortega. Um pueblo muito simpático e que seria a minha próxima parada.



Segunda-feira, 10 de agosto de 2009

08:30h 20ºC Saída de Belorado, com a maioria das roupas molhadas, lavadas na noite anterior e que não houve tempo para secar-las, vão presas com broches do lado de fora da mochila

12:00 15ºC Chegada em San Felix de Oca. Subida punk até chegar ao Alto de la Pedraja, um parque natural com vistas estupendas, uma flora exuberante e o retorno do sol, depois de uma semana sem dar as caras. A partir desse trecho passei a cantar a toda voz com e uma alegria incrível as canções que me vinha a cabeça e que achava que tinha a ver com aquele momento:

Legião Urbana - Perfeição

Legião Urbana - Soul Parsifal

Marisa Monte - Vilarejo

Milton Nascimento - Caçador de mim

Arnaldo Antunes - Fim do dia

Arnaldo Antunes - Hotel fraternité

Djavan & Cássia Éller - Milagreiro

Almir Satter - Tocando em frente

Titãs - Epitáfio

Os the Darma Lóvers - Everest

Raul Seixas - Tente outra vez

(Que falta que faz minha harmônica!)








Monastério San Juan de Ortega

15:20 20ºC Chegada em San Juan de Ortega. Fico hospedado no Monastério, assisto à missa do peregrino e faço um monte de amizades, aí começo a minha série de aquarelas, com a temática de cada cidade que passo. Essa primeira esa uma versão psicodélica do brasão na porta do monastério com seu motivos vegetais.


Terça-feira, 11 de agosto de 2009 Saída San Juan de Ortega com uma neblina que não se enxergava 20 metros adiante. (mas o labirinto mágico estava lá e eu vi, numa bifurcação do Caminho meu sonho de resignação dar vez a outro projeto de transcendência!)

09:40h Chegada em Burgos. Paro uma hora no locutório pra acessar a internet e chamar ao telefone a Laís, minha sobrinha que estava aniversariando.

12:20h Chegada ao albergue municipal.

Por um módico preço de 3€, o albergue municipal de Burgos, situado em um prédio histórico reformado dispõe de boas instalações e confortáveis camas. E os peregrinos ainda ganham de cortesia uma visita guiada ao centro histórico da cidade. A arquitetura gótica da catedral de Burgos me desperta uma inevitável nostalgia. Inspirado por essa arquitetura, fiz essa aquarela, que em outra parte do caminho iria presentear a um "futuro" amigo que faria em seguida. Logo contarei essa história.








Por um momento sou tomado por uma ponta de tristeza que só passaria depois de visitar o Parque del Castillo, onde assitiria a um espetáculo de danças e músicas folclóricas daquela região e coroaria a tarde vislumbrando o belo pôr do sol.













Catedral de Burgos



12 de agosto de 2009 07:00 a.m. - Saída de Burgos


Na saída do albergue, já faço amizade com Pilar, espanhola de Madrid. paramos num bar, na saída da cidade pra tomar um café, e lá encontramos Michele, militar italiano de Genova. Michele, com pressa, saiu antes do bar e esqueceu seu chapéu. No caminho, conseguimos reencontar com el e lhe devolvemos seu chapéu. Seguimos os tres conversando até chegar em Hornillos del Camino. Tomamos uma cerveja e nos despedimos de Pilar, que encerraria a jornada daquele dia naquela localidade. Seguimos os dois, eu e o italiano até Hontanas. Esse é um dos trechos mais cansativos do Caminho. Pouca sombra, uma paisagem que não muda, um calor insuportável beirando os 40ºC. O pueblo está situado numa baixada e me dava uma angústia de saber que faltava pouco menos de um kilômetro pra chegar nele e não se avistava.Por fim, chegamos a Hontanas. passei toda a tarde na piscina municipal tratando de aplacar aquele calor. Lá conheci a dinamarquesa Marie, que tinha vivido no interior de São Paulo e que falava português, inclusive com as gírias e quase nenhum sotaque.



13 de agosto de 2009, 05:00 a.m.

Saída de Hontanas

No albergue, na noite anterior conheçi o catalão Jaume de Igualada e o galego Xosé. E começo a jornada na companhia dos novos amigos. Pego carona na luz da lanterna que eles levavam e vou compartilhando as experiências da caminhada. Durante todo o período de escuridão da madrugada até as primeiras luzes da barra do dia, presenciamos uma chuva massiva de asteróides. Dizem que esse fenômeno é muito conhecido nessa região, que inclusive pode ter gerado o nome Compostella (Campo de Estrelas).

Às 14:00 p.m. sob um sol escaldante, chego sozinho a Frómista. O albergue em Frômista funciona numa antiga gare da estação de trens. Alí, conheço e passo a integrar um novo grupo de peregrinos: O galego Fernando, a catalã Raquel, o argentino Martin, a valenciana Edu, as andaluzas Sara e Carmen , Angelines de Logroño e a italiana Anna. No final da tarde, entre trens indo e vindo, fizemos música com Martin ao violão.

Com esse grupo passo a caminhar as próximas escalas. Em prol da unidade do grupo, adquiro outros hábitos: Começar a jornada depois de todo mundo, sem muita pressa, curtindo as paragens em que passamos. Uma dessas paragens é o pueblo Villacazar de Sirga. Alí fomos a uma visita guiada à igreja Santa maria La Blanca, construída pelos templários na Idade Média. Nesse templo, senti um mal-estar comparado à Síndrome de Stendhal. Um princípio de perda de sentidos e uma estranha reação de pranto.

Me explicava o pároco, que os templários quando se dedicavam a contruir um novo templo, levavam em consideração as coordenadas geográficas, os lençóis freaticos e uma série de conjunções para uma perfeita integração dos elementos, quiçás para tentar explicar aquele meu estado.

Naquele dia, às 13:45 h chegamos a Carrier del Conde. Estava um calor arrasador. Mais de 40ºC. Sabendo dessas condições e de que o próximo trecho até Calzadilla de la Cueza seria de 17 kilômetros sem sombra nem água potável, dividimos o grupo assim: Uma parte, resoloveu encarar o sol e o calor e seguiu a caminhada. Eu e a outra parte do grupo, decidimos só seguir o caminho quando o sol baixasse um pouco. Enquanto esperávamos fizemos uma siesta num parque às margens do Rio Carrion.

Às 17:00h seguimos nossa caminhada.

A outra parte que se adiantou no caminho reservou nossas plazas no albergue. Por coincidência, esse albergue é administrado por Sidney, baiano de Salvador, filho de uma baiana com um australiano.

Só chegaríamos ao albergue às 22:00h, com o Caminho todo às escuras. Jantamos todos no restaurante do pueblo.


(HAVERÁ CONTINUAÇÃO)