Conscientize-se!
jueves, 31 de diciembre de 2009
lunes, 28 de septiembre de 2009
Outros caminhos - Ajaiô, ultreia et suseia

martes, 11 de agosto de 2009
Caminho de Santiago
Agô (do Yorubá Àgò: Interjeição usada na tradição dos orixás como pedido de licensa ou desculpa)
Barcelona, 04 de agosto de 2009, 06:30h
Assim que desci com Rafael, o amigo a quem confiei meus pertences enquanto estivesse viajando, já em contato com a rua, lembrei de um espetáculo de teatro que assisti e que começava justamente assim: Há que pedir licensa aos caminhos toda vez que for trilhar uma larga jornada. Eu, que já tenho meio pezinho no TATAC-TUMTUM, fui direto ao donos dos caminhos:
Laroiê, Exu!
Agô!
Encaro seis horas num ônibus de Barcelona até Pamplona. Já na estação rodoviária me deparo com dois colegas brazucas, peregrinos mas em bicicleta. Eles me pedem pra fazer uma foto dos dois.
Começo a minha caminhada já fazendo uma siesta. Na saída de Pamplona, invejo um grupo de ciclistas que param um tempinho pra descansar antes de encarar um sol de 31ºC às 14h.
Depois do descanso merecido passo pela Universidade de Navarra para obter meu primeiro registro de passagem na credencial do peregrino e começo, enfim minha peregrinação
No primeiro trecho entre Pamplona e Cizur Menor já senti a necessidade de levar um cajado. Parece viadagem de místicos que um peregrino tem que andar apoiado num cajado, mas esse apoio ajuda bastante na hora das subidas e te equilibra nos terrenos em desnível, evitando quedas desnecessárias. Está muito de moda usar umas varetas retráteis para caminhadas (12€ cada uma no Decathlon). Mas eu preferi escolher meu próprio cajado pelo caminho. Entre os galhos secos das árvores ía pegando uns, fazendo um test drive e logo os descartando até chegar ao cajado perfeito.
Pau na mão; pé na estrada!
Saindo de Zariquiegui, aos pés do Alto del Perdón (734m) paro pra ver uma dupla de parapentes fazendo evoluções no ar. Cai a noite e tenho a minha primeira experiência franciscana: Dormi ao relento num banco de pedra. Aí, montei meu sleeping bag e dormi rapidinho, afinal a viagem de ônibus de Barcelona a Pamplona e os 10 km percorridos já me consumiram de montão.
Quarta-feira, 05 de agosto de 2009, 06:30h
Alto del Perdon
Sob uma temperatura de 20ºC, deixo o Alto del Perdón e vou tomar meu café da manhã em Uterga. Ali consigo meu segundo registro na credencial do peregrino e vou inflando mais ainda meu orgulho.
Em seguida passa a ciclista brasileira que pediu para tira uma foto dela na estação rodoviária de Pamplona. Desayunamos juntos e, depois ela segue na frente com sua bike.
Às 11:00h chego em Puente la Reina. Alí passo no mercado, compro algo de frutas, biscoitos e iogurte e faço uma pausa para larica na saida da cidade. Depois em outro trecho, viria a fazer uma siesta às 15:00h como uma maneira de não estar exposto aos 35ºC que faziam nessas paragens.

Puente la Reina
Às 17:00h faço uma pausa em Cirauqui. Lá mesmo com o pueblo de portas fechadas para o horário da siesta, consegui encontrar um
mercadinho aberto e assim, pude comprar alguns gêneros para a próxima jornada
Às 19:20, com um sol alto ainda, saio de Cirauqi, e, ao longe, na linha do horizonte, vejo uma nuvem ameaçadora, mas negligencio o perigo. Viríamos nos encontrar num pomar de pêssegos, macieiras e pés de ameixa. Eu e a tormenta. Estava isolado no meio do nada a uns 5 Km do próximo povoado. E agora? como sobreviver???
Uma das minhas características mais marcantes de um ser de escorpião é a capacidade de reacionar muito friamente e com concentração diante do perigo iminente: Descobri, no meio da plantação uma cabana coberta com um sistema de tubulações e uns tanques que recolhem água da chuva e a armazenam para irrigação.
Nisso, a chuva vinha de lado, fazia um vento insuportável e os raios já caiam ha uns 100 metros de mim. Me meti em cima desses tanques com um espaço útil de mais ou menos 1 metro entre os tanques e o teto, montei meu sleeping bag e fui controlando meu pânico à medida que diminuia a tormenta. Foi uma experiência perigosa e desconfortável...
Quinta-feira, 06 de Agosto de2009
Passada a tormenta, "amanheceu um lindo dia, cheirando a alegria".
Às 6 da manhã, levanto acampamento e sigo o caminho rumo a Estella, passando antes por Lorca.
Alí quase saio do rumo: a sinalização num trecho próximo ao supermercado Simply está um tanto confusa, mas quem tem boca...
Depois de uma pausa pra siesta (Percebam que já aderi totalmente a esse costume hispânico!!!), sigo rumo ao Monastério de Irache, onde instalaram uma providencial fonte onde jorra vinho!
Outra vez na trilha e na cidade de Ayequi, sou surpeendido por outra tormenta, mas dessa vez me abriguei debaixo de um túnel. Tão logo a chuva passa, sigo em direção a Azqueta, e em seguida busco o pernoite em Villamayor de Monjardin. Como não haviam plazas no albergue paroquial, único no pueblo, somente pude tomar um banho e me deram como alternativa dormir no frontón da casa paroquial. (Bendito saco de dormir _ Ave, Gláucia!) Dormi com os anjos, abrigado de uma terrível tempestade, não sem antes escutar a cantoria perturbadora dos "peregrinos" alemães, que se portavam como se estivessem numa Oktoberfest em Munique.
Sexta-feira, 07 de Agosto de 2009
Às 7:00 h de um dia nublado e sob temperatura de 15ºC, Zarpo de Villamayor. Aí começaria uma semana inteira sem ver o sol!
Até chegar em Los Arcos, comecei a lembrar de minha família e passei a entoar, como um mantra os nomes dos meus irmãos em ordem decrescente: IANEMDICADOINENASUCARAILUIJOJECUMPADITULABEGAEBI.
Nesse "mantra" é possível notar que, quando sou mencionado, sou o único a não ter um apelido ridículo inventado por meu pai, a não ser a forma equivocada como se é pronunciado meu nome no Nordeste do Brasil: JOJE. A melodia, eu ía inventando na hora.
Com o tempo nublado, senti uma melhor disposição para caminhar e já não havia necessidade da siesta pra esperar o sol baixar. Essa região do Estado de Navarra é produtora de cereais e, por todo o caminho se viam enormes pilhas de feno de trigo já transformados em grandes fardos em forma decaixa retangular.
Minha passagem por Los Arcos só tardou o tempo de tomar um café num posto de gasolina. Daí segui rumo a Sansol, um pueblo em fiesta mayor, que me recebe com foguetório, banda marcial e campanadas. Caminhando mais 5 minutos, chego à cidade vizinha, Torres del Rio. Alí visitei a igreja do Santo Sepúlcro e segui o caminho com meu recém-amigo, David do País Vasco. No meio do caminho paramos pra fumar um porro (cigarro de haxixe), mas como íamos em ritmo diferente, deixei que ele seguisse na frente.
Chegando em Viana, paro numa fonte pra um descanso, e, por causa da minha camisa da Seleção Brsileiras de 70, fui surpreendido por outro brazuca, o potiguar Deodoro, um senhor de 60 e poucos anos amante das caminhadas.
Buscamos juntos um albergue, mas por mala suerte este já havia encerrado as vagas., então decidimos seguir juntos até Logroño. Na saída da cidade, encontramos com o vasco David, descansando um bocadinho antes de seguir a caminhada.
Às 19:00h chegamos a Logroño e consegimos a última e melhor vaga do albergue municiapal: Um quarto reservado aos hospitaleiros.
Obs. Uma semana depois essse albergue seria interditado por uma praga de chinches. (percevejos)
Chinches
Sábado, 08 de Agosto de 2009
Meu amigo Deodoro saiu à francesa. Eu só saí às 7:30h e assim segui em direção a Nájera.
Às 11:00h chego em Navarrete e às 13:50h em Ventosa. Paro um instante na bodega Valformosa e passo a lembrar das pessoas especiais na minha vida: Maria, Gua, Fernando, Luciano, Mulher de Fé, Deise, Pablo, Bell, Mel... Choro!
Recupero o ânimo e sigo confiante em direção a Nájera, em princípio com um senhor francês. Íamos conversando em inglês. Num outro trecho, sigo com uma senhora navarra: Gerusa.
Deixo com Gerusa em Nájera, onde a esperava o seu marido, o livro que me havia presenteado meu amigo Nacho, em Barcelona dias antes de começar essa aventura. Com isso pude me livrer de um peso que me molestava. Gerusa fez o grande favor de despachá-lo por correio para meu endereço em Barcelona.
Como estou com disposição (e não há mais vaga no albergue de Nájera) sigo rumo a Azofra. - Às 18:30h chego ao albergue municipal de Azofra. O tempo está nublado e se ouvem alguns trovões.
Domingo, 09 de Agosto de 2009
Às 05:00h levanto acampamento e sigo a minha paletada. Num trecho mal sinalizado e na escuridão da madrugada acabo perdendo a trilha. Ando alguns metros pela carretera e com auxílio da bússola, reconecto outra vez com a trilha.
08:00h 15ºC Chego em Cirueña
09:00 18ºC Santo Domingo de la Calzada. Na saída da cidade, ando com Rafael, andaluz. Com ele, naquele domingo chuvoso, cruzo a divisa La Rioja/Burgos.
13:30h 12ºC Chego em Redecilla del Camino e aí assisto à missa dominical. Terminada a missa, pensava em buscar um local coberto (já que chovia) para fazer uma siesta, como não encontrei nenhum lugar seco e limpo, parei na saída da cidade pra comer um sanduíche e eis que encontro outra vez com o senhor potiguar, que havíamos feito juntos o trecho Viana/Logroño.
Com Deodoro, caminhamos até Belorado. No caminho, passamos pelo refúgio do carioca Acácio em Viloria de Rioja, alí deixei uma das minhas aquarelas.
Em Belorado, em pleno dia dos pais encontrei um albergue com uma boa infra estrutura. De cara já meti os pés dentro da piscina de água gelada - Faziam 10ºC.
Foi apreciar o por do sol em Belorado nas ruínas do castelo. Alí, um outro peregrino me recomendou que desse uma mirada atenta em San Juan de Ortega. Um pueblo muito simpático e que seria a minha próxima parada.
Segunda-feira, 10 de agosto de 2009
08:30h 20ºC Saída de Belorado, com a maioria das roupas molhadas, lavadas na noite anterior e que não houve tempo para secar-las, vão presas com broches do lado de fora da mochila
12:00 15ºC Chegada em San Felix de Oca. Subida punk até chegar ao Alto de la Pedraja, um parque natural com vistas estupendas, uma flora exuberante e o retorno do sol, depois de uma semana sem dar as caras. A partir desse trecho passei a cantar a toda voz com e uma alegria incrível as canções que me vinha a cabeça e que achava que tinha a ver com aquele momento:
Milton Nascimento - Caçador de mim
Arnaldo Antunes - Hotel fraternité
Djavan & Cássia Éller - Milagreiro
Almir Satter - Tocando em frente
(Que falta que faz minha harmônica!)
Monastério San Juan de Ortega
15:20 20ºC Chegada em San Juan de Ortega. Fico hospedado no Monastério, assisto à missa do peregrino e faço um monte de amizades, aí começo a minha série de aquarelas, com a temática de cada cidade que passo. Essa primeira esa uma versão psicodélica do brasão na porta do monastério com seu motivos vegetais.
Terça-feira, 11 de agosto de 2009 Saída San Juan de Ortega com uma neblina que não se enxergava 20 metros adiante. (mas o labirinto mágico estava lá e eu vi, numa bifurcação do Caminho meu sonho de resignação dar vez a outro projeto de transcendência!)
09:40h Chegada em Burgos. Paro uma hora no locutório pra acessar a internet e chamar ao telefone a Laís, minha sobrinha que estava aniversariando.
12:20h Chegada ao albergue municipal.
Por um módico preço de 3€, o albergue municipal de Burgos, situado em um prédio histórico reformado dispõe de boas instalações e confortáveis camas. E os peregrinos ainda ganham de cortesia uma visita guiada ao centro histórico da cidade. A arquitetura gótica da catedral de Burgos me desperta uma inevitável nostalgia. Inspirado por essa arquitetura, fiz essa aquarela, que em outra parte do caminho iria presentear a um "futuro" amigo que faria em seguida. Logo contarei essa história.
Por um momento sou tomado por uma ponta de tristeza que só passaria depois de visitar o Parque del Castillo, onde assitiria a um espetáculo de danças e músicas folclóricas daquela região e coroaria a tarde vislumbrando o belo pôr do sol.
Catedral de Burgos
12 de agosto de 2009 07:00 a.m. - Saída de Burgos
Na saída do albergue, já faço amizade com Pilar, espanhola de Madrid. paramos num bar, na saída da cidade pra tomar um café, e lá encontramos Michele, militar italiano de Genova. Michele, com pressa, saiu antes do bar e esqueceu seu chapéu. No caminho, conseguimos reencontar com el e lhe devolvemos seu chapéu. Seguimos os tres conversando até chegar em Hornillos del Camino. Tomamos uma cerveja e nos despedimos de Pilar, que encerraria a jornada daquele dia naquela localidade. Seguimos os dois, eu e o italiano até Hontanas. Esse é um dos trechos mais cansativos do Caminho. Pouca sombra, uma paisagem que não muda, um calor insuportável beirando os 40ºC. O pueblo está situado numa baixada e me dava uma angústia de saber que faltava pouco menos de um kilômetro pra chegar nele e não se avistava.Por fim, chegamos a Hontanas. passei toda a tarde na piscina municipal tratando de aplacar aquele calor. Lá conheci a dinamarquesa Marie, que tinha vivido no interior de São Paulo e que falava português, inclusive com as gírias e quase nenhum sotaque.
13 de agosto de 2009, 05:00 a.m.
Saída de Hontanas
No albergue, na noite anterior conheçi o catalão Jaume de Igualada e o galego Xosé. E começo a jornada na companhia dos novos amigos. Pego carona na luz da lanterna que eles levavam e vou compartilhando as experiências da caminhada. Durante todo o período de escuridão da madrugada até as primeiras luzes da barra do dia, presenciamos uma chuva massiva de asteróides. Dizem que esse fenômeno é muito conhecido nessa região, que inclusive pode ter gerado o nome Compostella (Campo de Estrelas).
Às 14:00 p.m. sob um sol escaldante, chego sozinho a Frómista. O albergue em Frômista funciona numa antiga gare da estação de trens. Alí, conheço e passo a integrar um novo grupo de peregrinos: O galego Fernando, a catalã Raquel, o argentino Martin, a valenciana Edu, as andaluzas Sara e Carmen , Angelines de Logroño e a italiana Anna. No final da tarde, entre trens indo e vindo, fizemos música com Martin ao violão.
Com esse grupo passo a caminhar as próximas escalas. Em prol da unidade do grupo, adquiro outros hábitos: Começar a jornada depois de todo mundo, sem muita pressa, curtindo as paragens em que passamos. Uma dessas paragens é o pueblo Villacazar de Sirga. Alí fomos a uma visita guiada à igreja Santa maria La Blanca, construída pelos templários na Idade Média. Nesse templo, senti um mal-estar comparado à Síndrome de Stendhal. Um princípio de perda de sentidos e uma estranha reação de pranto.
Me explicava o pároco, que os templários quando se dedicavam a contruir um novo templo, levavam em consideração as coordenadas geográficas, os lençóis freaticos e uma série de conjunções para uma perfeita integração dos elementos, quiçás para tentar explicar aquele meu estado.
Naquele dia, às 13:45 h chegamos a Carrier del Conde. Estava um calor arrasador. Mais de 40ºC. Sabendo dessas condições e de que o próximo trecho até Calzadilla de la Cueza seria de 17 kilômetros sem sombra nem água potável, dividimos o grupo assim: Uma parte, resoloveu encarar o sol e o calor e seguiu a caminhada. Eu e a outra parte do grupo, decidimos só seguir o caminho quando o sol baixasse um pouco. Enquanto esperávamos fizemos uma siesta num parque às margens do Rio Carrion.
Às 17:00h seguimos nossa caminhada.
A outra parte que se adiantou no caminho reservou nossas plazas no albergue. Por coincidência, esse albergue é administrado por Sidney, baiano de Salvador, filho de uma baiana com um australiano.
Só chegaríamos ao albergue às 22:00h, com o Caminho todo às escuras. Jantamos todos no restaurante do pueblo.
(HAVERÁ CONTINUAÇÃO)
martes, 30 de junio de 2009
Relato gonzo de uma aventura beatnik
Jack Kerouac (1922/1969) Escritor Estadunidense
TPI significa Trilha Sonora Impossível e na verdade é a sugestao de música que dou para ouvir enquanto vai lendo o post.
(TPI) La Nuova Giuventu - Legião Urbana
Tudo que sei
É que você quis partir
Eu quis partir sem você
Tirar você de mim
Demorei para esquecer
Demorei para encontrar
Um lugar onde você não me machucasse mais
E guardei um pouco
Porque o tempo é mercúrio-cromo
E tempo é tudo que somos
Talvez tivéssemos, teríamos tido, tivéramos filhos
Estava lhe ensinando a ler
On the Road
E coisas desiguais
Com você por perto
Eu gostava mais de mim.
Veja bem, eu já não sei se estou bem só por dizer
Só por dizer é que finjo que sei
Não me olhe assim
Eu sou parte de você
Você não é parte de mim.
Do meu passado você faz pouco caso
Mas, só para você saber,
Me diverti um bocado
E com você por perto
Eu gostava mais de mim
Jack Kerouac me ensinou a gostar de road movies. Já fui protagonista de um desses (ou coadjuvante, talvéz!). Em dezembro de 2004 viajei na boléia de uma carreta desde Feira de Santana, Bahia até São Paulo. O lugar e a época eram outros, os personagens também. Júnior, o condutor daquela aventura era um homem ajuizado, fiel à sua esposa: um pai de família exemplar.O lugar dos fatos era o meu país. De alguma maneira, se algo desse errado, eu estaria seguro de conseguir me safar de outro jeito.
Espanha, Junho, 2009
(TPI) Vapor Barato - Gal Costa http://www.youtube.com/watch?v=qY3HeVK6m6IA proposta de sair de Barcelona até a Holanda a bordo de um caminhão me surgiu quando meu lado beatnik voltou a aflorar, depois de permanecer por 3 anos vivendo aos trancos e barrancos no país ibérico. Sem documento nenhum no bolso, usando a roupa do corpo, a cabeça aberta para o porvir e tendo como comandante Cristiano, vulgo Canjão, brasileiro do interior de São Paulo e residento no País Vasco há 7 anos. Um mala-leche impressionante, politicamente incorreto ao extremo: O Seu Lunga em pessoa, mas no fundo um sujeito com um coração enorme. Suas virtudes, já conhecia desde o nosso último contato, quando esteve em Barcelona para tratar de algum assunto no Consulado do Brasil, mas seus defeitos, vim descobrindo no decorrer da viagem. Embora eu presumisse que aquele comportamento fora adquirido para construir um personagem e toda aquela demonstração de arrogância era, na verdade um jogo, uma encenação. Eu reagia como se jogasse também, à minha maneira, com meu cinismo e ironia característicos. Às vezes lhe retrucava com um refrão do Caetano: "Quem te deu tanto axé?", ou como minha mãe quando alguém lhe pergunta se está bonito e ela resume-se a dizer: "Tá uma beleza!", mas com um desprezo cortante.
Assim que comecei essa viagem, Cristiano foi logo abrindo seu laptop para me mostrar a sua galeria com seus troféus de caça. Figuram nessa galeria, em sua grande maioria mulheres brasileiras que se dedicam na Espanha à profissão de "modelo & atriz" ; as "primas", como ele mesmo diz.
Saimos de Barcelona desde a Estação de França com destino a Girona. De lá sairíamos com uma carga de papel reciclado em direção a uma Planta de Reciclagem em Zaragoza. Descarregamos os papéis e, em Zaragoza mesmo, metemos uma carga de tupperware com destino a Holanda, uma parte para a região de Gouda (onde se produzem os famosos queijos gouda) http://www.holandalatina.com/gouda.htm e outra parte em Rotterdam. http://es.wikipedia.org/wiki/Róterdam Antes de seguir para os Países Baixos, passamos dois dias e meio no País Vasco, na cidade fronteiriça de Irun, Guipuzcoa. Irun é uma espécie de base estratégica para os caminhoneiros que fazem rotas internacionais.
Outros ares
Observava atentamente os enormes câmbios de paisagem desde que saí de Zaragoza e ingressei no Reino de Navarra. O horizonte perfilado por enormes cataventos para captação de energia eólica, os gigantescos painéis onde figuram os famosos touros da logomarca das bebidas Osbourne, que acabaram virando ícones da Espanha, e uma terra semi-desértica, davam passo a enormes chapadões de pedra, magníficas florestas de coníferas e placas de trânsito num estranho idioma: Euskera. A estrada sinuosa e a neblina indicava aos condutores uma extremada cautela.
Enfim chegamos a Irun, País Vasco. http://es.wikipedia.org/wiki/Irún Uma localidade na fronteira com a França. A cidade em festa pela comemoração de Sant Marcial, fez pouco caso ao atentado atribuido ao ETA na localidade vizcaína de Arrigorriaga http://washington.holaciudad.com/notas/18072-un-muerto-un-atentado-coche-bomba-vizcaya. Nos dias úteis que ficamos em Irun, Cristiano aproveitou pra ajustar suas contas no banco e revisar os freios do caminhão. No segundo pernoite na cidade (de sexta pra sábado), fomos visitar um puteiro. Além de nós dois, tínhamos como companhia Biscoito, um pivete de uns 22 anos, um sujeito que apesar da pouca idade tinha histórias do arco-da-velha: Ex-detento da Febem, ex-puxador de carros, meio-irmão de um repórter da Rede Globo. O cara tinha um currículum invejável!!! Mas acho que também fantasiava uma boa parte das prosas que contava.
O Pub Frontera é uma construção como as típicas casas vascas: um challet alto de duas águas e com os marcos das portas e janelas em tom de marrom. Nos recebe à porta um negro forte de sotaque dominicano. Na parte térrrea está um bar ao centro da sala, com música pomperô nas alturas. Ao redor dele, as putas passeiam de biquini e lingerie oferecendo beliscões nas bundas dos homens e a proposta de uma noite de sonhos.
Fiquei meia hora de conversa fiada com uma chica carioca peituda que parecia a Brigitte Nielsen e que se dizia instrutora de windsurf. Dava pra perceber que ela mentia pra caralho.
Je ne parle pas français
(TSI) Je Ne Regrette Rien - Cássia Éller http://www.youtube.com/watch?v=RPIP7kWNphQ
Saímos na tarde de sábado rumo à França. Ficaríamos em um camping na região de Blois, onde se concentram os famosos Chateau. http://en.wikipedia.org/wiki/Blois Nos esperavam Mônika, velha conhecida do caminhoheiro e Richard, seu namorado francês, instrutor de mergulho em uma missão num rio da região. Ficamos hospedados em um bungalow e fomos convidados a visitar um castelo-museu-galeria de arte: Chateau Chaumont. Parece que o francês-anfitrião ficou um pouco enojado com o mal-comportamento dos seus convivas e meio que isolou-se, deixando o Cristiano à vontade para sentar-se no mobiliário que fazia parte do acervo do museu ou tocar nos sinos da instalação artística.

Me encarregei do jantar do sábado e Cristiano do churrasco do domingo.
Partimos às 22 horas do domingo em direção à Holanda. Teríamos que chegar em Gouda nas primeiras horas da manhã. À meia-noite passamos por Paris. Só consegui ver a Torre Eiffel de longe mas passei pelo túnel onde morreu a Princesa Diana. Ouvíamos a radio latina que sempre desenterrava hits brasileiros de outrora: Kaoma (Chorando se foi), Skank (Me sinto só)...
Com as primeiras luzes do dia, já transitávamos em território belga, cuja paisagem rural às vezes cedia espaço para fumegantes usinas nucleares e os onipresente cataventos de energia eólica.
Enfim, chegamos a Gouda, onde descarregamos parte da mercadoria e seguimos para Rotterdam. Depois de descarregar, paramos num lugar que parecia ser um polo petroquímico e um porto conjugados. Alí havia uma conexão de wi-fi e assim, deixamos nossos e-mails e orkut em dia.
Demorei a dormir, algo me molestava. Desci do caminhão e fui dar um passeio pelas redondezas, vi que o local estava infestado de coelhos.
(TPI) Waiting in Vain - Bob Marley http://www.youtube.com/watch?v=d88rwjCjHQg&feature=related
Despertamos no dia seguinte ao som de reggae. O som vinha de um carro de uns rapazes que trabalhavam num galpão próximo do lugar onde pernoitamos.
Estivemos um tempo aguardando desde Zaragoza uma ordem para recarregar o caminhão. Chegou o SMS e nossa próxima missão seria em Boom, Antuérpia, Bélgica.
Quando tentamos por o caminhão em marcha, a bateria, que já havia dado sinais de debilidade em outras ocasiões, resolveu morrer de vez.
Nao havia nada que a fizesse ressuscitar, então fui gastar meu inglês de Tarzan com os rapazes que escutavam reggae. Entre eles havia um negro de Curaçao muito gente boa que falava espanhol. esse rapaz com muito boa vontade troxe o seu caminhão e conectados por cabos elétricos à nossa máquina, conseguimos reavivá-la. Essa gentileza do nosso amigo curaçalino nao foi suficiente o bastante para dissuadir do caminhoneiro as suas idéias racistas.
Depois de carregar na Bélgica uns grupos geradores da sede da Atlas Copco em Boom, rumamos outra vez ao sul, em direção à Atlas Copco Madrid.
Nossos anfitriões na França (Monika e Richard) nos convidava dessa vez para uma festa na Euro Disney. Eu, de pronto, já disse que iria me abster. Ao final, chegamos demasiado tarde na Capital Francesa e somente tínhamos ânimo para tomar um banho, comer algo e dormir.
O jogo que o Cristian tentava tomou outro revés nessa noite, quando ele me induzia a que saíssemos na mão para saber quem era melhor na briga. A princípio como uma espécie de "vou provocar esse idiota pra ver até onde ele chega com essa paciência toda!!". E claro que minha paciência foi toda embora, rapidinho surgiu a minha cara de profundo desaponto.
Final do jogo: Paz 1 X 0 guerra.
Buenas noches, hasta mañana!
Despertamos em Paris e seguimos em direção a Madrid, mas demos uma passadinha em Irun. Na Capital espanhola, almoçamos num restaurante bagaceira e depois voltamos para descarregar os grupos geradores na Atlas Copco. Dalí iríamos a Torrejón de Ardoz a carregar outra vez. Como chegamos depois do expediente da fábrica, ficamos de voltar na manhã seguinte à primeira hora. Aproveitamos a estadia por alí e tomamos um trem de cercania para dar um passeio pela noite madrileña... algo como para desfazer a imagem negativa que tenho daquela cidade... De nada adiantou: Sigo odiando Madrid.
Às 8:00h da manhã, conforme combinamos, estávamos outra vez na fábrica para carregar o caminhão, mas a operação outra vez foi impossível porque houve uma pane na empilhadeira. Outro contato com a sede da transportadora e já tínhamos um novo carregamento pra fazer, dessa vez em Guadalajara (uma carga de produtos químicos para piscina) e de lá para Zaragoza.
(TSI) Vertigem - Os The Darma Lóvers
Você tem vertigem
Da imagem que conquistou pra si
Você tem vertigem
Das alturas que pensa em conseguir
Tudo é miragem
E esse é um rito de sonho e de passagem
Mas requer coragem
E mesmo aos trancos temos que prosseguir
Você tem vertigem
Do seu futuro, dos planos que lançou no ar
Leva junto um mundo, medo
Abre os escudos
Pras flechas que possam vir
Mas não há garantias
E as coisas duram
Por um curto tempo dentro de um curto espaço
Tudo vai, mas algo fica
Somos só flores
Capim verde na paisagem
Entre Guadalajara e Zaragoza passamos sem querer a discutir filosofia para leigos, o peso do mundo, o nirvana e a sensação de vazio provocada pelos projetos não concretizados. Contei a história da minha primeira bicicleta, uma mountain bike amarela que seria meu sonho não concretizado na infância e que só pude ter depois que começei a trabalhar no aeroporto, nas primeiras férias que logrei gozar. A bicicleta dourou exatos 15 dias nas minhas mãos, porque dei de presente pro meu irmão Joa que soube dar um bom uso ao veículo. Para mim, só restava a sensação de felicidade por ter concretizado um sonho. O meu interlocutor sempre teve fácil tudo o que queria na vida...
Lembrei muito da figura do meu pai no dia da minha vinda pra Espanha, com as lágrimas jorrando dos seus olhos verde/azul, repetindo o refrão que conhecia da música do Mestre Ambrósio: "Terra alheia, pisa no chão devagar..."
Com Cristiano nossas discussões sobre ética eram muito acirradas, tínhamos pontos de vista totalmente antagônicos: Ele achava que eu, denunciando a discoteca cujo segurança havia me agredido porque fui ao seu escritório pra cobrar um soldo, estava traíndo a confiança de quem me oferecera um trabalho, em compensação achava perfeitamente normal que os estrangeiros para trabalhar na Europa usassem documentação falsa. Era partidário do jeitinho brasileiro. Criticava muito a minha conduta tipicamente baiana de "carência de usura"... A cada saculejo de Cristiano, tentando me trazer à realidade do mundo cruel e desleal, eu trazia à mente outra vez a figura do meu pai (grande herói ou vilão) que nos educou tão somente para sermos felizes, não para sermos bem sucedidos na vida.
A paisagem árida dessa parte da Espanha me fez lembrar os romances de cavalaria. A presença de um ou outro castelo medieval fazia a mente viajar ao mais famoso desses romances. Os gigantescos cataventos da energia alternativa complementavam o cenário. Eu me via como o fiel escudeiro Sancho Pança na iminência de preparar meu cavaleiro para uma batalha contra moinhos de vento.
A verve provocadora do camioneiro me apontava para rumos mais duros que deveria trilhar, me indicando a malandragem como melhor veículo para aclançar o sucesso. Esses diálogos me provocaram uma profunda indignação... essa aventura havia mexido muito com o meu ego e eu deveria recuperá-lo com uma certa urgência. Protagonizei aventuras mas me comportava como um mero figurante. Parecia que não era nada comigo. Era o jogo do comandante, assumidamente egocêntrico, que dizia que só fazia algo por alguém quando era conveniente pra ele.
Eu, que até então havia aceitado todas as manias do caminhoneiro, de tanto doar-me acabei esgotado. Necessitava centrar-me outra vez pra recuperar o ego perdido. Haveria de virar o jogo do cativo contra seu amo.
(TSI) What does my heart feel so bad? - Moby http://www.youtube.com/watch?v=qT6XCvDUUsU
Eu já havia decidido: Em Zaragoza, a próxima parada dessa aventura, eu seguiria meu caminho de volta a Barcelona e trataria de reconectar-me com a minha modesta realidade.
Comunique-lhe meu desejo de ficar por alí, afinal, estávamos há uns 300 Km de Barcelona, sairia mais barato tomar o ônibus de volta. Ele concordou; pediu-me para esperá-lo enquanto ía no posto de gasolina tomar uma ducha, depois me deixaria num ponto onde fosse mais fácil conseguir o ônibus pra casa.
Estávamos outra vez na carretera quando percebi que Zaragoza já estava ficando pra trás e que já nos aproximávamos de Pamplona. A minha reação quando sinto-me enganado é portar uma peculiar e perturbadora mudez, o que tornaria impossível a convivência com o anfitrião. Esse, fez de tudo para me devolver ao estado natural: dançou forró de plástico na poltrona, cantou uns temas sertanejos, falou com deus e o mundo por celular... De nada adiantaria.
Chegando a Irun, não demorei muito para informá-lo de que não tinha vontade nenhuma de dormir naquele caminhão. Já eram 0:30h, não haviam mais ônibus nem trens saindo de Irun, mesmo assim, me dirigi à estação da Renfe e alí passei aquela noite fria.
Ao amanhecer, tentei comprar a passagem de ônibus, mas o guichê onde vendem os bilhetes não funcionava aos sábados, haveria de comprá-los por internet. Tentei a Renfe, mas os preços íam além do meu orçamento então decidi sair da cidade andando até onde as pernas aguentassem. Também necessitava mergulhar na minha profunda solidão, recuperar a individualidade ofuscada.
Trekking Violento
(TSI) Pescador de ilusões - O rappa http://www.youtube.com/watch?v=6f8DOApn4cs
Aos poucos fui conhecendo e me situando na geografia do País Vasco, sabia que ia ter que seguir rumo a Pamplona, Navarra, assim rumaria ao sudeste espanhol.
Saí da cidade pela rodovia NA 121, mas pouco antes de passar pelo primeiro túnel dessa estrada, um ciclista me informou que a carretera antiga era melhor para o trekking. Baixei então para a estrada secundária. Mais abaixo dela havia uma pista mais rústica, uma trilha que seguiria todo o curso contrário do Rio Bidasoa, ou seja, rumo à nascente do rio. Essa trilha, que antes havia sido uma ferrovia para transportar minérios, me levaria à cidade de Santesteban, em Navarra, atravessando todo o Parque Natural Señorio de Bertiz. http://www.parquedebertiz.es/portada.php
Tenho umas estranhas formas de terapia, gosto de disfrutar da solidão e faço isso melhor quando estou caminhado, em silêncio, para onde as pernas me levarem... até a exaustão.
A trilha pela orla do Rio Bidasoa, além da vista divina de grandes vales e canyons, paradarias e floresta densa também oferece um precioso banquete: Em todo o caminho se pode ir colhendo morangos, cerejas, maçãs e amoras silvestres. Existem várias nascentes de água pura e cristalina, o próprio rio é área de desova dos salmões. Essa atmosfera do paraíso possível amenizava a imensa dor existencial e a física: após algumas horas de caminhada, o joelho e tornozelos esquerdos manifestavam um enorme descontento.
Em um trecho da pista havia uma placa de sinalização de uma obra, onde proibia a passagem a qualquer pessoa alheia a essa construção. A obra somente apareceria 2 km depois. Era uma grande ponte para a reforma da rodovia secundária. Assim sendo, eu deveria retornar 2 km do trecho percorrido e buscar um atalho até a rodovia principal ou atravessar o rio e encontrar com essa rodovia na margem oposta.
Claro que preferi a segunda alternativa. Com todo o cuidado, escolhi um trecho do rio onde haviam umas corredeiras. Alí resolvi relaxar um pouco antes de seguir a caminhada. O sol era causticante, mas o contato com a água fria fazia daquele banho algo de divino e lúdico.
Alí consegui um cajado que me apoiaria pelo resto da caminhada. Atravessei o rio com toda a cautela para não deslizar em nenhuma das pedras e não me provocar nenhum dano. A tarefa de voltar à carretera era algo mais arriscada. A vegetação densa, cheia de plantas espinhosas e um barranco muito íngreme me deixou algumas lascerações na pele, tive que abrir com o cajado que tinha em mãos a trilha que não existia.
Saindo da carretera e e outra vez na trilha me deparo com outro percalso: Havia como única passagem um velho túnel gotejante de água de nascente, onde não se avistava a saída, amedrontador à primeira vista. Pensei que poderia servir de abrigo a alguma fera do parque: Um urso, um lince, sei lá...
Não haveria outra maneira de passar por esse trecho, onde a possibilidade de atravessar o rio era praticamente nula, já que este, corria por um profundo vale de uns 20 metros de altura. Decidi encarar a escuridão e vencer meus medos. Usei meu celular como lanterna mas o fenômeno da cegueira momentânea de quando estamos expostos à luz do dia e passamos à escuridão, faria inútil a fraca luz que o aparato emite. Nisso, já fui metendo meus pés nas poças que se formava pelas infiltrações do túnel, quando descobri por acaso que nas paredes haviam uns pulsadores com uma fraca luz de led vermelho. Toquei num desse pulsadores e para minha grata surpresa: FIAT LUX !!!
Agora eu conhecia meus domínios. Instantaneamente meus temores deixaram de existir. Agora sei onde piso, mas vi que não logrei muita sorte no quesito APRESENTAÇÃO PESSOAL: Os tenis estavam totalmente impregnados de lama, das poças que havia pisado enquanto tateava no breu à procura da saída daquele ambiente confinado.
A recompensa viria um tempo depois, quando encontrei uma nacente, com algo construído como um tanque, coberto com telhas e decorado com avencas nascidas naturalmente no local. Alí lavei os tenis, as meias, a camiseta e parei 2 horas para uma siesta.
Já recuperado do cansaço, mas não do joelho e tornozelo, que cada vez doiam mais, segui a caminhada. Eram 4 da tarde e eu estava preocupado em chegar logo ao pueblo mais próximo, antes que caísse a noite porque temia ao frio e às feras da floresta.
Um segundo túnel escuro e gotejante voltou a provocar meus medos. Dessa vez não haviam os providenciais pulsadores, mas me lembrei do isqueiro que levava na mochila e com isso pude iluminar o caminho e seguir tranquilo a minha trajetória.
Pouco a pouco percebi a presença de outros seres humanos compartilhando a mesma trilha. Dava pra entender que havia um pueblo nas proximidades. Perguntei a um casal se na cidade cercana havia Renfe (Rede Ferroviária) e me responderam negativamente, mas assim mesmo me tranquilizei que não precisava me submeter aos riscos do pernoite na montanha.
Resolvi dar um gás na caminhada e cheguei à cidade de Santesteban http://www.pueblos-espana.org/navarra/navarra/santesteban/. A cidade em festa comemorava São Pedro. Perguntei num bar sobre os ônibus que saíam para Pamplona e disseram que o último saía às 18:ooh - Já passava das 20:30h quando decidi seguir viagem andando pela carretera, já que aparentemente a trilha que seguia desde Irun acabava alí. Passei na loja de conveniência de um posto de gasolina e comprei algo de comer, mas a minha profunda timidez me impediu de pedir carona aos caminhoneiros que faziam pausa nesse local. Segui caminhado até atravessar um túnel de 500 metros.
O sol já havia se posto quando vi na mergem da estrada algo que parecia um camping: vários traillers, barulho de gerador, fogueira... Entrei no recinto e busquei a varanda de uma velha casa fechada na intenção de pernoitar por alí. De repente se aproximam os moradores do camping e me recebem com uma hospitalidade desconcertante. São ciganos, me dão as boas-vindas, me oferecem vinho, uma manta emprestada, me informam onde posso esperar o ônibus para Pamplona, enfim, o somatório dessas gentilezas fazem cair por terra o preconceito que eu poderia nutrir por essa gente.
Me desperto às 6:00h, deixo limpo o local que me serviu de leito, dobro a manta emprestada e deixo um bilhete escrito em papel de embrulho manifestando meu profundo agradecimento e meto o pé na estrada outra vez.
Esperei pelo ônibus que só chegaria às 10:15h. Desembarquei em Pamplona às 11:00h e teria que esperar até as 16:00h quando reabririam os guichês da rodoviária para comprar a passagem para Barcelona. Aproveitei pra fazer uma siesta no Paque Ciudadella, uma antiga construção militar reabilitada para uso comunitário.
Passada a siesta, voltei à rodoviária e enfim, consegui a passagem para o horária da 1:15h da madrugada. Enquanto esperava o horário da saída, resolvi dar um passeio pela simpática cidade http://www.pueblos-espana.org/navarra/navarra/pamplona/. Segui o Caminho de Santiago até o ponto em que este sai da zona urbana; fiz o caminho inverso e vi que na Paróquia da Paz, no centro de Pamplona se celebrava a missa dominical das 20:00h. Assisti a missa com um certo receio de que as minhas mal-cheirosas roupas pudessem enfadar aos demais fiéis.
Quando cantaram "Senhor eu não sou digno que entreis em minha morada mais dizei uma palavra e serei salvo", taquei o pau a chorar. Recebi um afago na mão e um sorriso de uma senhora que estava sentada ao meu lado.
Acabada a missa, volto ao Ciudadella e espero pacientemente o horário de embarque.
Entro no ônibus que enfim me devolveria à minha tão sonhada Babilônia.
(TSI) Diamante - Os the Darma Lóvers
Na saída da cidade, vejo da janela do ônibus uma lua nova como se exibisse um sorriso em vertical, como alguém que se prepara pra dormir e avalia o que de bom o dia lhe trouxe: Penso no Cristiano, no auge da sua egotrip entoando seu bordão: "Cola comigo que 'cê passa de ano!", Penso em Biscoito, Monika, Richard, a cover de Brigitte Nielsen, a senhora da igreja, o patriarca dos ciganos me oferecendo un vasico de vino. Penso que pode ser meu próprio sorriso estampado no firmamento.
Por quê não?
domingo, 14 de junio de 2009
O Homem Aranha

sábado, 13 de junio de 2009
Lego = Ego

martes, 9 de junio de 2009
Eu voto sim!















